Após uma revisão literária no campo das Dificuldades de Aprendizagem, deparamo-nos com muita bibliografia que incide sobre as características verbais em detrimento das não verbais, sendo que a investigação sobre o tipo de DA não verbais é mais limitada e ainda pouco explorada. Por este motivo, resolvi aqui dar algum destaque às DA não verbais.
De modo a tornar mais fácil a diferenciação entre os subtipos de DA, a abordagem neuropsicológica muito tem contribuído para o relacionamento entre as dificuldades características de cada subtipo e as funções específicas de cada hemisfério cerebral.
Assim, enquanto das DA verbais decorrem vários subtipos relacionados com a vulnerabilidade das aquisições psicolinguísticas, aquisições essas primariamente relacionadas com o hemisfério esquerdo do cérebro, que podem envolver multifacetados processos cognitivos auditivos, visuais, ou suas intrincadas e sistémicas perturbações, as DA não verbais (DANV), envolvem processos cognitivos mais dependentes do hemisfério direito, como por exemplo, organização visuo-espacial, percepção táctil, de resolução de problemas não-verbais e percepção social (Rourke 1975, 1989, 1993, 1995, citados por Cruz, 2003).
De um modo geral, a facilidade significativa nas competências verbais (reconhecimento verbal e leitura superiores à compreensão verbal) e no processamento auditivo, associada a: - défices nas capacidades de organização e síntese visuoespaciais, - pobres competências grafomotoras, - dificuldades bilaterais táctilo-perceptivas e psicomotoras (mais evidentes do lado esquerdo do corpo), - reduzida capacidade na aritmética e no raciocínio hipotético, - fraco desenvolvimento de competências sociais, - reduzida memória visual e, - fraca capacidade de resolução de problemas não verbais, denunciam um quadro de dificuldades de aprendizagem não verbais. Ao mesmo tempo, estas fazem-se acompanhar de sérias dificuldades sócio-emocionais e de adaptação (Rourke, 1991). Tais dificuldades são resultantes da depreciação de determinadas funções do hemisfério direito e/ou de um distúrbio generalizado do funcionamento superior.
Este conjunto de défices reflecte-se, provavelmente, num severo comprometimento das competências sociais, como por exemplo, no estabelecimento de relacionamentos interpessoais (op. cit.).
As dificuldades sociemocionais da criança com DANV parecem resultar de um conjunto de interacções entre os défices neuropsicológicos apresentados (op. cit.). Exemplos:
- défices nos juízos sociais podem resultar dos problemas básicos no raciocínio e na formação de conceitos, cuja origem, por sua vez, pode relacionar-se com dificuldades no cálculo matemático e raciocínio científico.
- dificuldades de organização visuo-espacial reflectem-se em problemas de identificação e reconhecimento de faces, expressão de emoções e outras identificações não verbais de importantes dimensões da comunicação humana.
- falta de prosódia, conjuntamente com um elevado nível de verbalização, tendem a fomentar o feedback negativo por parte daqueles que se vêm obrigados a ouvir o que aparentemente surge como uma recitação interminável de declarações “aborrecidas” e monótonas, que tais jovens parecem impelidos para pronunciar. O tipo de discurso e características da linguagem tendem a aliená-los dos outros, aumentando a probabilidade de experenciarem dificuldades emocionais e de adaptação.
- as habilidades psicomotoras e perceptivo-tácteis requeridas em encontros afectivos, em conjunto com os juízos inapropriados típicos destas crianças, dificultam ou impossibilitam os encontros mais íntimos.
- o evitamento da novidade por vezes conduz ao fracasso na apreciação de um evento novo, e a pobreza de resolução de problemas torna-os espontaneamente indefesos na adaptação às constantes mudanças que ocorrem nos grupos sociais e às novas interacções.
Bibliografia de apoio:
- Cruz, V. (2003). Dificuldades de Aprendizagem não verbais. Material disponível em http://http://www.educare.pt/
- Rourke, B. P. (1985). Neuropschology of learning disabilities: essentials of subtype analysis. New York: The Guilford Press.
- Rourke, B. P. (1991). Neuropsychological Validation of Learning Disability Subtypes. New York: Guilford Press.
- Rourke, B. P. (1995). Syndrome of nonverbal learning disabilities: neurodevelopmental manifestations. New York: Guilford Press.
- Simões, M. S. (1996). Avaliação Neuropsicológica das Dificuldades de Aprendizagem (I). Revista Portuguesa de Pedagogia, Ano XXX, (2), 263-312.
1 comentário:
Olá amiga Letícia!
Esta área das dificuldades de aprendizagem não-verbais é ainda muito pouco explorada e conhecida, sobretudo no nosso país, daí achar muito relevante esta tua breve revisão teórica.
Continuação do Bom Trabalho!
Um beijinho da amiga:
Andreia Patrício
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